Crise silenciosa na sala de aula
Artigo da mestre em Educação Ana Paula Soares alerta para o aumento da violência nas escolas, o avanço dos problemas de saúde mental entre docentes e defende maior participação das famílias, apoio institucional e valorização da carreira.
Ana Paula Soares Rodrigo Leal/Mestre em Educação
Ana Paula Soares*
A sala de aula, que deveria ser um espaço de respeito, aprendizado e construção coletiva, tem se tornado cada vez mais um ambiente de tensão para muitos professores da educação básica nas escolas públicas do Brasil.
Segundo dados divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e repercutidos pelo G1, os registros de violência no contexto escolar passaram de 3,7 mil casos em 2013 para 13,1 mil em 2023, mais que triplicando em uma década. Esse crescimento evidencia uma realidade preocupante e reforça que os desafios enfrentados pelos educadores vão muito além do processo de ensino e aprendizagem.
O desinteresse dos alunos em aprender, aliado ao desrespeito e à falta de empatia, revela uma crise silenciosa que compromete não apenas o processo pedagógico, mas também a saúde emocional dos educadores. Esse cenário não decorre apenas da escola: reflete também a educação que os jovens recebem em casa, a influência das redes sociais e os desafios impostos pelas transformações sociais contemporâneas.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), estabelece direitos e deveres de alunos e professores, mas muitas vezes limita a autonomia docente em aplicar medidas disciplinares. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ao proteger os estudantes, também impõe barreiras para que a escola consiga agir de forma mais firme diante de situações graves.
Não se trata apenas de indisciplina ou de falta de motivação individual. O que vemos é um reflexo de uma sociedade que, muitas vezes, não valoriza o conhecimento e não reconhece o papel fundamental do professor na formação cidadã. Quando valores como respeito e responsabilidade não são cultivados desde cedo, a escola enfrenta dificuldades para consolidá-los. Além disso, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define competências e habilidades esperadas, mas nem sempre dialoga com a realidade concreta da sala de aula. O professor, por sua vez, se vê obrigado a desempenhar papéis que vão muito além do ensino, tornando-se mediador de conflitos, psicólogo improvisado e até mesmo figura de resistência diante de uma estrutura que carece de recursos e estratégias eficazes.
Na minha experiência na educação básica, tenho observado um número crescente de professores afastados por questões relacionadas à saúde mental, especialmente transtornos de ansiedade, síndrome do pânico e depressão. Essa percepção encontra respaldo em dados recentes. Reportagem publicada pelo G1, com base em levantamento divulgado pela Fapesp, mostra que os casos de violência no ambiente escolar mais que triplicaram em uma década, passando de 3,7 mil registros em 2013 para 13,1 mil em 2023, evidenciando a deterioração das relações no contexto educacional.
Em uma aula de 50 minutos, tempo já reduzido para o desenvolvimento dos conteúdos, é comum interromper repetidamente a explicação para lidar com comportamentos inadequados de estudantes do ensino médio. Quando essas situações chegam às equipes pedagógicas, muitas vezes as intervenções não produzem mudanças efetivas e duradouras. Como consequência, práticas de desrespeito acabam sendo naturalizadas no cotidiano escolar, comprometendo tanto a aprendizagem quanto o bem-estar dos professores.
Recentemente, fui ameaçada em sala de aula por um estudante de 17 anos: ao pedir que ficasse quieto, ouvi como resposta “se me mandar calar a boca novamente eu te pego lá fora.” Em situações como essa, o apoio da escola é essencial, mas nem sempre acontece, já que a legislação e a burocracia dificultam ações mais firmes. O estudante permanece matriculado na mesma turma, o que gera insegurança para o professor.
É preciso reconhecer que a educação pública não pode depender exclusivamente da resiliência dos docentes. A equipe pedagógica e a gestão escolar têm a responsabilidade de criar estratégias de apoio, promover formação continuada e estabelecer uma cultura de empatia e corresponsabilidade. Mas é igualmente necessário que famílias participem mais ativamente da formação dos filhos e que políticas públicas deem condições reais para que a escola cumpra seu papel. A valorização docente precisa deixar de ser apenas discurso e se tornar prática efetiva, com melhores salários, condições de trabalho e apoio institucional. Sem esse compromisso coletivo, a escola se torna um espaço de desgaste, em vez de ser um ambiente de crescimento.
Se queremos uma educação pública de qualidade, precisamos reconhecer que o professor não pode carregar sozinho o peso de uma escola inteira. É urgente que alunos, famílias, equipe pedagógica, gestores e sociedade assumam sua parcela de responsabilidade, cultivando respeito, empatia e compromisso com o aprendizado. Valorizar o trabalho docente não é apenas uma questão de justiça, mas de futuro: sem professores apoiados e respeitados, não há como construir uma sociedade mais justa e preparada para os desafios do século XXI.
*Ana Paula Soares é Mestre em Educação e Novas Tecnologias, licenciada em Pedagogia e Letras, com formação em Psicopedagogia e especialização em Educação Especial. Atuo como professora na área da Educação, nos cursos de Pedagogia, Educação Especial e Psicopedagogia.
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