Cães domésticos avançam sobre Unidades de Conservação e ameaçam fauna no litoral do Paraná

Animais domésticos podem transmitir doenças, predar espécies nativas e desequilibrar ecossistemas sensíveis da Mata Atlântica

16/07/2026 18H50

Projeto UFPR-FUNBIO

Pesquisadores e instituições ambientais alertam para o avanço da circulação de cães domésticos dentro e no entorno de Unidades de Conservação (UCs) do litoral do Paraná. Embora façam parte da vida de muitas famílias, quando circulam livremente por áreas naturais esses animais podem transmitir doenças, predar espécies nativas, alterar o comportamento da fauna silvestre e agravar os riscos enfrentados por animais que já sofrem com perda de habitat, caça, atropelamentos e outros impactos humanos. 

Dados do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar (PGMSM), financiado pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP) e executado por Instituto de Pesquisas Cananéia (IPeC) e Instituto Manacá, mostram que cães domésticos foram registrados em 11 de 17 UCs monitoradas ao longo de cinco anos. No período, foram feitos 150 registros da espécie dentro e fora dessas unidades. Cachorros domésticos tiveram mais registros que paca, cachorro-do-mato, queixada, tatu, gato-do-mato-pequeno, gato-mourisco, entre outros.

“A presença de cães domésticos em áreas protegidas pode gerar impactos importantes para a fauna silvestre, principalmente por três vias: predação direta, transmissão de doenças e alteração do comportamento dos animais nativos. Cães podem perseguir, ferir ou matar animais silvestres, especialmente espécies de menor porte, filhotes, aves terrestres e mamíferos vulneráveis. Mesmo quando não há ataque direto, a simples presença, o cheiro, os latidos e a movimentação dos cães podem causar estresse, alterar rotas de deslocamento, reduzir o uso de determinadas áreas e interferir nos padrões naturais de atividade da fauna”, explica o pesquisador Roberto Fusco, coordenador do PGMSM. 

De acordo com Fusco, a presença de cães em áreas protegidas também pode estar associada à caça ilegal. Cães podem ser usados para localizar, perseguir ou encurralar animais silvestres, ampliando a pressão sobre espécies já vulneráveis. “O monitoramento ajuda a diferenciar situações, orientar a gestão e direcionar ações de prevenção, fiscalização, educação ambiental e diálogo com os atores locais”. 

O problema se agrava com o abandono de cães e gatos, que ficam expostos à fome, a doenças e a acidentes e podem avançar sobre áreas naturais em busca de alimento e abrigo, ampliando o contato com a fauna silvestre. Abandonar animais é uma forma de maus-tratos e constitui crime ambiental, conforme a Lei nº 9.605/1998. No caso de cães e gatos, a Lei nº 14.064/2020 prevê pena de dois a cinco anos de reclusão, multa e proibição da guarda. 

Projeto monitora cães e gatos no entorno do Superagui

O tema também é acompanhado por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que desenvolvem uma iniciativa voltada ao manejo e ao monitoramento sanitário da fauna doméstica em áreas próximas ao Parque Nacional do Superagui. O projeto Manejo e monitoramento sanitário do impacto humano e da fauna doméstica na predação e doenças para a fauna nativa, sua preservação e de seus ecossistemas, financiado pelo BLP, atua principalmente nas regiões da Barra do Superagui e da Barra do Ararapira.

Como parte desse trabalho, entre os dias 21 e 23 de julho, a UFPR promove um mutirão gratuito que realizará mais de 300 castrações de cães e gatos na Ilha de Superagui, em Guaraqueçaba (PR). A ação será realizada no Colégio Estadual do Campo Ilha de Superagui e integra as iniciativas voltadas à promoção da guarda responsável de animais domésticos e à conservação da biodiversidade nas UCs do litoral paranaense.

A médica veterinária Rafaella Martini, doutoranda em fisiologia pela UFPR e integrante do projeto junto aos residentes de Medicina Veterinária do Coletivo da UFPR, explica que a equipe trabalha com vacinação, ações clínicas, monitoramento e castração de cães e gatos. “O objetivo principal é fazer a vacinação, as ações clínicas com os animais, como medicina preventiva para evitar que os animais tenham doenças que possam passar para pessoas e para outras espécies da fauna silvestre, e fazer o manejo, que é a castração para evitar o aumento da população de cães e gatos nesta área que é tão sensível aos impactos da biodiversidade”, explica.

Segundo a doutoranda, o principal desafio está no fato de muitos animais serem semi domiciliados, ou seja, têm tutores e recebem alimentação e cuidados, mas circulam livremente pelas comunidades e áreas naturais. Essa dinâmica cria um ponto de contato constante entre animais domésticos, fauna silvestre e moradores. Atualmente, a equipe do projeto realiza um censo para identificar quantos cães e gatos vivem nas comunidades atendidas. O levantamento combina cadastro domiciliar e monitoramento por transectos lineares, metodologia em que pesquisadores percorrem trilhas, registram os animais avistados e medem a distância em relação à equipe para estimar a densidade populacional.

Os atendimentos do mutirão ocorrerão nos dias 21 e 22 de julho, às 8h para gatos; às 10h e 13h para cães. No dia 23, os gatos serão atendidos às 8h e os cães às 10h. A iniciativa é destinada a cães com idade entre 6 meses e 10 anos e a gatos com peso mínimo de 1,2 quilo, desde que estejam em bom estado de saúde, vacinados e vermifugados. Para participar, os tutores deverão possuir cadastro ativo na plataforma Gov.br. Após as cirurgias, serão fornecidos gratuitamente os medicamentos necessários para a recuperação dos animais, incluindo antibiótico, anti-inflamatório e analgésico.

Além das ações clínicas e do monitoramento, o projeto também desenvolveu cartilhas de educação ambiental com orientações sobre vacinação, cuidados veterinários básicos e a importância de manter os animais mais domiciliados, reduzindo a circulação dentro de áreas sensíveis para a biodiversidade.

Entre os materiais produzidos está a cartilha Nosso parque é a casa de muitos bichos – Guarda responsável de animais domésticos em unidades de conservação, elaborada pela UFPR, com revisão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) no âmbito do projeto. A publicação reúne orientações sobre a convivência responsável entre animais domésticos e a fauna silvestre nas UCs e traz ilustrações do cartunista Fernando Gonsales, médico veterinário e biólogo formado pela Universidade de São Paulo (USP). O material será distribuído durante o mutirão para conscientizar os moradores sobre a importância da guarda responsável e da conservação da biodiversidade.

Rafaella ressalta que o trabalho demanda sensibilidade para compreender a realidade dos moradores, reconhecendo suas limitações de acesso a serviços veterinários e políticas públicas, sem deixar de considerar suas responsabilidades.

RPPNs também enfrentam impactos da circulação de cães 

Gestor e proprietário da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Etambóia, localizada na zona de amortecimento do Parque Estadual Pico Marumbi, em Morretes, Glauco Oliveira afirma que os cães podem alterar o comportamento natural de espécies nativas. “Cães podem afugentar a fauna nativa, cada vez mais encurralada em fragmentos da floresta, e afetar diretamente a disponibilidade de alimento para outros carnívoros nativos. Espécies como o gato-mourisco, por exemplo, tem hábitos diurnos e podem ser extremamente afetadas com a presença de cães que aparecem com mais frequência durante o dia. Na RPPN o cão doméstico é a segunda espécie que é registrada com mais frequência no monitoramento feito há mais de cinco anos, ficando atrás apenas do graxaim. De 2023 até agora já são 305 registros”, diz.

Na RPPN Etambóia, Glauco desenvolve um projeto de vacinação em parceria com a Tiger Cats Conservation Initiative (TCCI) e a Prefeitura de Morretes. Duas campanhas já imunizaram 100 cães da comunidade local com vacinas antirrábica e polivalente. “Estamos aplicando o conceito de Saúde Única (One Health): a compreensão de que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas”. 

Sobre o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná

Criado em 2021, o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná promove a conservação, a pesquisa e o uso responsável dos recursos naturais das Unidades de Conservação do litoral paranaense. Financiado pelo Termo de Acordo Judicial (TAJ) firmado após o vazamento de óleo ocorrido em 2001, o Programa transformou um passivo ambiental em investimento em conservação: serão mais de R$ 110 milhões destinados a iniciativas estratégicas ao longo de dez anos. 

A governança do programa é compartilhada entre organizações da sociedade civil, instituições de ensino superior e órgãos governamentais. A gestão financeira e operacional do Programa é realizada pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Para saber mais, acesse www.biodiversidadelitoralpr.com.br.



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