Análise do solo antes do plantio pode reduzir riscos e aumentar produtividade da soja

Tecnologias de biologia molecular ajudam a identificar fungos e nematoides e orientam o uso de bioinsumos antes da semeadura

26/08/2026 11H41

O planejamento da safra de soja começa antes mesmo de as plantadeiras entrarem no campo. Além das tradicionais análises químicas e físicas, novas tecnologias de biologia molecular estão permitindo aos produtores conhecer com maior precisão a saúde do solo, identificar possíveis patógenos e definir estratégias de manejo antes da semeadura.

Por meio de técnicas como a qPCR, Reação em Cadeia da Polimerase em Tempo Real, é possível detectar e quantificar a presença de fungos e nematoides no solo antes mesmo do surgimento de sintomas nas plantas. As informações podem auxiliar na escolha de cultivares, no tratamento das sementes e na definição de medidas preventivas para reduzir perdas durante o desenvolvimento da cultura.

A atenção ao solo ganha ainda mais importância diante do tamanho da produção brasileira. Segundo o 10º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26 da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, divulgado em julho, a produção nacional de grãos deve alcançar 360,1 milhões de toneladas. Desse volume, aproximadamente metade corresponde à soja, com estimativa de 180,6 milhões de toneladas, crescimento de 5,3% em relação à safra anterior.

Patógenos podem estar presentes antes da semeadura

De acordo com Tatiani Janegitz, gerente de Desenvolvimento de Mercado Agronegócio da Loccus, empresa especializada em soluções para biotecnologia e diagnóstico molecular, conhecer previamente as condições do solo pode evitar problemas durante o desenvolvimento da lavoura.

“Antes do plantio, é importante conhecer as condições do solo, que podem abrigar diferentes patógenos. Quando a semente germina e a planta começa a se desenvolver, esses organismos encontram condições favoráveis para se multiplicarem e podem comprometer a lavoura”, explica.

Segundo a especialista, os resultados permitem selecionar cultivares mais adequadas, definir bioinsumos para o tratamento das sementes e adotar medidas preventivas de manejo fitossanitário.

Outra tecnologia disponível é o sequenciamento de DNA de nova geração, conhecido como NGS. A ferramenta possibilita analisar o microbioma do solo, mapeando a diversidade das comunidades microbianas presentes na área.

Com isso, podem ser identificados tanto microrganismos benéficos quanto potenciais causadores de doenças. O diagnóstico também auxilia na identificação de áreas com baixa biodiversidade microbiana e pode orientar estratégias de manejo regenerativo e utilização de produtos biológicos.

“A análise molecular não substitui a avaliação agronômica, mas acrescenta informações objetivas para apoiar as decisões antes do plantio”, destaca Tatiani.

Mercado de bioinsumos supera R$ 6 bilhões

A expansão das tecnologias de diagnóstico ocorre paralelamente ao crescimento do mercado de bioinsumos no Brasil.

Dados divulgados em 2026 pela CropLife Brasil apontam que o setor movimentou mais de R$ 6,2 bilhões em 2025, crescimento de 15% na comparação com o ano anterior. A área tratada com produtos biológicos chegou a 194 milhões de hectares, avanço de 28%.

A soja lidera a utilização desses produtos no país. Levantamento referente à safra 2024/25 aponta que a oleaginosa concentrou 62% do uso de bioinsumos, enquanto a taxa média de adoção por área plantada passou de 23% para 26%.

Como muitos desses produtos são produzidos a partir de microrganismos vivos, o controle de qualidade é considerado fundamental para garantir sua eficiência.

Nesse processo, tecnologias como a qPCR também podem ser utilizadas pela indústria para verificar identidade, pureza e concentração dos microrganismos, além de detectar possíveis contaminações.

“A eficácia dos bioinsumos está diretamente ligada à viabilidade dos microrganismos que compõem sua formulação. As ferramentas moleculares ampliam a capacidade de monitoramento dos fabricantes, oferecendo maior precisão, rastreabilidade e segurança”, afirma Tatiani.

Diagnóstico ajuda a direcionar tratamento das sementes

Na prática, o trabalho pode começar com a coleta de amostras do solo e a investigação dos principais patógenos relacionados à soja. Os resultados devem ser avaliados juntamente com o histórico da propriedade e as características da área, sempre com orientação de profissionais habilitados.

A partir do diagnóstico, o produtor pode definir de forma mais direcionada o tratamento das sementes, utilizando fungicidas, inoculantes ou outros bioinsumos de acordo com as necessidades identificadas.

Também devem ser observados fatores como registro, validade, procedência e condições de armazenamento dos produtos utilizados na lavoura.

“A proposta não é realizar uma análise molecular da semente antes do plantio, mas compreender melhor o ambiente em que ela será inserida. Quanto mais informações o produtor tiver sobre o solo, maior será sua capacidade de direcionar o tratamento e reduzir riscos antes da implantação da lavoura”, conclui Tatiani.


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