Agro brasileiro bate recorde nas exportações, mas queda nos preços acende alerta para novo desafio

Setor movimentou US$ 38 bilhões em exportações no primeiro trimestre de 2026, porém preço médio dos produtos caiu 2,8%; especialista defende mais tecnologia, processamento e valor agregado

15/08/2026 18H05

*Henrique Galvani é sócio-fundador e CEO da Arara Seed,

*Por Henrique Galvani, CEO da Arara Seed

O agronegócio brasileiro começou 2026 alcançando números expressivos no comércio internacional. Foram US$ 38 bilhões em exportações e um superávit de US$ 33 bilhões no primeiro trimestre, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

O desempenho, entretanto, revela um desafio importante para os próximos anos. Enquanto o volume exportado cresceu 3,8%, o preço médio dos produtos brasileiros recuou 2,8%.

Na avaliação de Henrique Galvani, CEO da Arara Seed, os números mostram que o Brasil consegue ampliar sua presença no mercado internacional, mas precisa avançar na capacidade de gerar e capturar mais valor sobre aquilo que produz.

Brasil vende mais, mas precisa agregar valor

Para Galvani, a próxima etapa de desenvolvimento do agronegócio não deve estar concentrada somente no aumento da produção.

O setor precisa avançar em áreas como inovação, industrialização, processamento, rastreabilidade e sustentabilidade, aumentando a eficiência e, principalmente, a rentabilidade ao longo da cadeia produtiva.

Isso significa transformar uma parcela maior da produção brasileira antes que ela deixe o País, ampliando a participação de produtos com maior valor agregado no comércio internacional.

O Brasil já possui uma das maiores produções agrícolas do mundo. O desafio é fazer com que essa escala produtiva também resulte em maior geração de riqueza.

Desperdício de alimentos também entra na conta

Outro ponto destacado pelo especialista é a necessidade de reduzir as perdas.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) alerta que o mundo ainda está distante da meta de reduzir pela metade o desperdício de alimentos até 2030.

Nesse contexto, produzir cada vez mais não seria suficiente. O setor também precisa encontrar formas de aproveitar melhor aquilo que já produz.

Tecnologias relacionadas à armazenagem e logística podem contribuir para diminuir perdas entre a propriedade rural e o consumidor.

Tecnologia pode abrir novos mercados para o agro

A transformação também passa pela adoção de novas tecnologias.

Entre as áreas apontadas como oportunidades estão armazenagem, logística, rastreabilidade, bioinsumos, agricultura regenerativa, processamento e desenvolvimento de novos alimentos.

Soluções inicialmente relacionadas à sustentabilidade estão se transformando também em oportunidades econômicas para produtores, indústrias e investidores.

A rastreabilidade, por exemplo, permite acompanhar a origem e diferentes etapas da produção. Já certificações ambientais e tecnologias voltadas à redução de impactos podem ajudar produtos brasileiros a acessar mercados mais exigentes.

Agtechs e foodtechs ganham espaço

Nesse processo, as agtechs e foodtechs, startups especializadas respectivamente no agronegócio e no setor de alimentos, passam a ter papel cada vez mais relevante.

Essas empresas desenvolvem soluções para diferentes etapas da cadeia, desde o aumento da produtividade dentro das propriedades até processamento, logística e relacionamento com consumidores.

O avanço das plataformas de investimento voltadas ao setor também pode facilitar a entrada de capital em empresas que desenvolvem tecnologias para solucionar gargalos históricos do agronegócio.

Próxima fronteira é transformar o Brasil em potência agroindustrial

O Brasil já reúne condições consideradas estratégicas para avançar nesse processo: grande escala produtiva, conhecimento técnico, empresas consolidadas e um ecossistema crescente de startups.

O desafio será transformar esses ativos em produtos e serviços de maior valor.

Entre as possibilidades estão alimentos processados, ingredientes especiais, biotecnologia, tecnologias agrícolas, certificações e soluções relacionadas às mudanças climáticas.

Para Henrique Galvani, o futuro da competitividade brasileira dependerá não apenas da quantidade produzida e exportada, mas também da capacidade do País de capturar mais valor em todas as etapas da cadeia.

“O Brasil já é uma potência agrícola. A próxima fronteira é transformar essa escala em uma potência agroindustrial, tecnológica e sustentável”, avalia Galvani.

O cenário coloca o agronegócio diante de uma nova etapa. Depois de conquistar espaço entre os maiores produtores e exportadores de alimentos do planeta, o desafio passa a ser vender melhor, industrializar mais, reduzir perdas e aumentar o valor da produção brasileira.

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