Ria dos Absurdos da Vida em vez de Chorar

Infelizmente, vivemos dias de muita angústia. Todavia, é preciso viver todos os dias como se fosse o último, e, assim poder agradecer aquilo que não mais esperava acontecer em sua vida

05/12/2020 10H12

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Advogado no Paraná - Palestrante

Professor do Curso de Direito da UNIPAR 

iraja@prof.unipar.br


Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C – 65), foi um filósofo estoico (felicidade extraída da dominação do homem ante suas paixões em detrimento da razão) e um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano. Conhecido também como o Moço, o Filósofo, ou ainda, o Jovem, sua obra literária e filosófica, tida como o modelo do pensador estoico durante o Renascimento, inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista. É dele a frase: “Aquilo que foi doloroso suportar torna-se agradável depois de suportado; é natural sentir prazer no final do próprio sofrimento”.

A Covid-19 mostra a sua face novamente. São quase nove meses de clausura autoimposta para não disseminar a doença. Será que o isolamento é a solução? Será que o fechamento do comércio e da indústria é a solução? Viver amedrontado (medo de morrer em razão do vírus) pode causar outras doenças? Será que medir a temperatura na entrada dos estabelecimentos, usar máscara e álcool em gel ajuda a afugentar o vírus? Todos os nossos hábitos do cotidiano foram drasticamente alterados (abraçar, beijar, dar as mãos, confraternizar, etc.). Fato é que todos nós estamos assistindo/vivendo o aumento da violência intrafamiliar (contra crianças, mulheres e idosos), do divórcio, do desemprego em massa, do fechamento definitivo de empresas, da escassez de mercadorias ou preços elevados e inacessíveis à maioria da população. Tudo parece fugir do controle das autoridades e, também, das famílias. Nossa liberdade foi restringida pelo invisível. Vivemos dias de muita tristeza! Por conseguinte, toda essa situação caótica, pode sim desencadear no ser humano desequilíbrios emocionais. Porém essa é a nossa realidade, não tem outra. Se não temos remédio para a atual situação, remediado está! Ria dos absurdos da vida em vez de chorar e se descabelar. Pois, nessa hora, rir é o melhor remédio (dito popular). Sim, a cura para nossos males pode estar no sorriso. Na alegria de viver, apesar de tudo.

Epicuro (filósofo), ao refletir sobre a arte do bom viver dizia que nunca é tarde demais e nem cedo demais para lutar contra a presença descomunal e apavorante do futuro em nossa vida. O homem sábio cuida do dia de hoje. E basta. Simplicidade em tudo, principalmente no modo de se comunicar, eis a sua recomendação, pois acreditava que “a verdade precisa falar uma linguagem simples e sem artifícios”. Seja simples, portanto. E ria, finaliza o filósofo.

Veja o caso de Heráclito e Demócrito (filósofos gregos da Antiguidade). Diante da miséria humana, Heráclito chorava. Demócrito ria. No correr dos dias nós vemos uma série infinita de absurdos e de patifarias. Alguém a quem você fez bem retribui com ódio. A inveja parece onipresente. Você tropeça e percebe a alegria mal disfarçada dos inimigos e até de amigos. Nas palavras de Rochefoucauld: “sempre encontramos uma razão de alegria na desgraça de nossos amigos”. A hipocrisia é dominante. As decepções se acumulam. Em suma, a vida como ela é. Diante de tudo isso, as alternativas estão basicamente representadas nas atitudes opostas de Heráclito e Demócrito. Você pode chorar. Ou, então, você pode rir.

Até mesmo o filósofo alemão Schopnhauer, o pessimista, reconhece sabedoria na jovialidade. Diz Ele: “Acima de tudo, o que nos torna mais imediatamente felizes é a jovialidade do ânimo, pois essa boa qualidade recompensa a si mesma de modo instantâneo. Nada pode substituir tão perfeitamente qualquer outro bem quanto essa qualidade, enquanto ela mesma não é substituível por nada”.

Infelizmente, vivemos dias de muita angústia. Todavia, é preciso viver todos os dias como se fosse o último, e, assim poder agradecer aquilo que não mais esperava acontecer em sua vida. Isto é: o dia seguinte. Viva sem ansiedade (desejo ardente de antecipar o futuro) e sem depressão (desejo profundo de mudar o passado). Viva o hoje!

Sêneca nos ensina que “para ser feliz é preciso lidar bem com a ideia da morte”. Ele se aprofundou nos estudos sobre as aflições humanas, sobretudo, a do medo da morte. Dizia ele que “por mais que te espantes, aprender a viver não é mais que aprender a morrer”. Ele pregava o desprezo pela morte.  Não por morbidez ou pessimismo. Nas suas palavras: “quem despreza a morte vive, paradoxalmente, melhor. Sobre sua alma não pesa o terror supremo da humanidade, qual seja, o fim da vida”. Parece inacreditável, mas muita gente morre do medo de morrer, escreveu Sêneca. Por seu turno, essa também é a única certeza que temos na vida, ou seja, a de que vamos morrer um dia. Por conseguinte, proponho: vamos rir dos absurdos da vida!