PREOCUPAÇÕES ÉTICAS COM A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL APÓS IMPLANTAÇÃO DA TECNOLOGIA 5G

A tecnologia 5 G vai permitir que todas as máquinas, todos os equipamentos eletrônicos se comuniquem entre si.

07/02/2021 08H56

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Advogado no Paraná - Palestrante

Professor do Curso de Direito da UNIPAR

iraja@prof.unipar.br

 

Grace Murray Hopper (1906 – 1992), foi professora de matemática, pesquisadora, escritora, almirante e analista de sistemas da Marinha dos Estados Unidos (décadas de 40 e 50), também foi criadora da linguagem de programação de alto nível Flow-Matic – base para a criação do COBOL -, e uma das primeiras programadoras do computador Havard Mark I em 1944. É dela a frase: “Um ser humano deve transformar informação em inteligência ou conhecimento. Tendemos a esquecer que nenhum computador jamais fará uma nova pergunta."

Vivemos em tempos de mudanças e a velocidade dos acontecimentos nos surpreende. Sob a era da tecnologia, gradativamente, galgamos evoluções revolucionárias. Sendo assim, para viver melhor e antenado com as mudanças é preciso saber no que consistem estas tecnologias e qual sua utilidade para o bem da humanidade.  Será que ocorrerá a relativização da liberdade? As mudanças de hábitos e costumes violarão preceitos éticos?

No que consiste a tecnologia do 5 G? O “G” é de geração. São as tecnologias que foram chegando com a telefonia celular. A tecnologia do primeiro G permitiu que o usuário falasse no telefone sem fio. A tecnologia 2 G trouxe a possibilidade do usuário de celular também se comunicar por textos através do “SMS”. A tecnologia 3 G trouxe a possibilidade da conexão do telefone móvel com a internet. Surge a criação de alguns aplicativos e a possibilidade de gravação de áudios. A tecnologia 4 G permitiu ao usuário acessar as redes sociais, o streaming (aplicativos como: waze, netflix, spotify, games sofisticados, amazon, etc). A tecnologia 5 G quando estiver na sua plenitude será seiscentas vezes mais rápida que a 4 G. Permitirá a transmissão de dados de 10 giga bits por segundo. Será extraordinário. Sendo assim, permitirá que jogos de computadores sejam cada vez mais reais; permitirá a inteligência artificial em todos os equipamentos eletrônicos, como p.ex.: os carros e máquinas agrícolas autônomas (conduzidos sem motorista por drones); permitirá cirurgias remotas sem a presença física do médico cirurgião, p.ex.: médico cirurgião na Alemanha e o paciente na sala de cirurgia em hospital no Brasil (hoje a cirurgia é feita por robótica com a presença do médico na sala de cirurgia). Não haverá mais atrasos nas transmissões de dados. Tudo acontecerá em tempo real.

A tecnologia 5 G vai permitir que todas as máquinas, todos os equipamentos eletrônicos se comuniquem entre si, p.ex.: haverá comunicação entre a televisão, o aquecedor, o forno micro-ondas, o ar condicionado, câmeras de segurança, iluminação interna, via inteligência artificial com a possibilidade de interação com o celular. Em síntese, os equipamentos eletrônicos terão inteligência artificial e, todas as informações captadas no ambiente familiar (imagens e conversas intimas), urbano (câmeras de segurança e o próprio aparelho celular) e profissional (utilização do celular, de computadores e câmeras de segurança interna) serão armazenadas na nuvem. Quem vai controlar essas informações? O que vão fazer com elas?

Por conseguinte, estudiosos do comportamento humano tem uma grande preocupação com os impactos éticos que estas tecnologias do 5 G trarão para a humanidade. A primeira preocupação diz respeito à saúde humana, pois tal tecnologia (wireless) emitira radiação infinitamente maior que a atual, e, provocará o aumento exponencial dos casos de câncer. O sinal da telefonia móvel será captado em qualquer lugar do planeta. O mundo será interligado por satélites que emitirão radiação constante sobre a terra.

A segunda preocupação ética diz respeito a autonomia dos equipamentos eletrônicos na tomada de decisões via inteligência artificial, p.ex.: os computadores já conseguem identificar com precisão qual o melhor investimento na bolsa de valores. Sinalizam qual o melhor momento de compra e de venda das ações a partir de análises de algoritmos. Outro exemplo são os carros e máquinas agrícolas autônomas, onde o próprio equipamento toma as decisões conforme a necessidade do momento.

A terceira preocupação ética está ligada com a deep fake (sofisticação da mentira). Essa realidade virtual possibilitara a falsificação, próximo da perfeição, de imagens humanas (rosto, corpo, gestos e fala), de forma que poderá provocar a imputação de atos ilícitos a terceiros sem que estes tenham participado dos fatos, como p.ex.: a produção de um vídeo com cenas de traição com intuito de provocar o divórcio do desafeto, ou ainda, cenas da prática de um crime de homicídio. Em qualquer dos casos a parte será alvo de julgamentos por ilícitos que não cometeu (provas falsas). O juiz precisara de muita acuidade para não se enredar nas provas falsas.

A quarta preocupação ética está ligada com a tecnologia neuralink (implantes cerebrais em humanos). Há uma tendência em conectar a mente humana (implante de micros chips ou nano robô) com as máquinas, como p.ex.: nos casos de Alzheimer onde o paciente vai perdendo a memória gradativamente. Nesse caso, o chip ou o nano robô implantado no cérebro do paciente terá a função de armazenar toda memoria interativa (pensamentos e sentimentos) do paciente, e, no momento que lhe faltar a memória cognitiva o chip implantado (memória auxiliar) lhe suprirá o lapso cognitivo. Essa seria uma cura ou adaptação ao Alzheimer?  Mais do que isso, como ficará a intimidade do paciente que será monitorado diuturnamente pela tecnologia? Quem controlará estas informações? Esse sistema já está sendo testado em macacos que possibilita estes animais jogarem vídeo game com perfeição.

A quinta preocupação ética está ligada com a engenharia genética. Trata-se da possibilidade da modificação genética dos humanos. Nas plantas e nos animais isso já é realidade, como p.ex.: a modificação genética das sementes para aumento da resistência à pragas e aumento da produtividade. Todavia, o que mais preocupa os estudiosos da ética é a possibilidade da prática da eugenia (raça perfeita). Na China, há relatos de que cientistas já estão usando esta tecnologia para desenvolver crianças com genes modificados, resistentes a alguns vírus, bem como, produção de bebes mais inteligentes, cor da pele, dos olhos e dos cabelos atendendo à vontade dos pais. A intervenção é feita no ventre materno. A criação da raça pura. O homem brincando de ser Deus! Onde o homem quer chegar?

Tal comportamento é extremamente antiético. Essa intervenção poderá desaguar, no futuro próximo, na implantação de chip nas pessoas, a fim de melhorar seu bem estar geral, e, todos passarem a ser controlados pela tecnologia. Sustenta-se que o cidadão do futuro não conseguirá desenvolver qualquer atividade se não estiver “chipado”. Ficará à mercê da inteligência artificial. Será?

Grace Hopper nos ensina que “Um navio no porto é seguro, mas não é para isso que os navios existem. Navegue para o mar e faça coisas novas”. O ser humano foi criado para se desenvolver física, mental e espiritualmente. Não se olvide disso. Entretanto, em todo trajeto os limites impostos pela ética comportamental deverá nortear a caminhada. Lembre-se disso!