O poder de influência das redes sociais

Não há nenhum mal em usufruir as redes sociais, o problema seria a “coisificação” do ser humano, tornando-o apenas o que ele consome, e não mais o que ele é.

13/03/2021 18H45

foto: Divulgação/Assessoria

Helton Kramer Lustoza

Procurador do Estado 

Professor do Curso de Direito da UNIPAR 

www.heltonkramer.com


O documentário "o Dilema das Redes", lançado em 2020 no Netflix, trouxe uma série de inquietações e questionamentos acerca dos efeitos das redes sociais na vida das pessoas. Este documentário descreve o vício e os impactos negativos sobre jovens e adultos em passar muito tempo na frente de computadores e telefones celulares.

Isso mostra que experiências digitais, aparentemente inocentes, como recomendações automáticas, notificações e publicações sugeridas, funcionariam como iscas lançadas diariamente pelos aplicativos. Seriam estratégias propositais das próprias redes sociais para conservar os usuários logo período te tempo conectado e, consequentemente, visualizando os anúncios dos parceiros comerciais. 

Contudo, o que mais intriga é descobrir que a dinâmica das redes tem causado sérios efeitos no ser humano. Um deles diz respeito à questão de como as redes sociais afetam a autoestima das pessoas. E, nesse tema, Tristan Harris, ex-desenvolvedor do google, afirmou que "nós evoluímos para nos importarmos com que outras pessoas 'da tribo' pensam de nós, porque é importante. Mas será que evoluímos para saber o que 10 mil pessoas pensam de nós?". E mais, nossa incapacidade de lidar com aquilo que não nos agrada. Segundo ele, "estamos treinando e condicionando uma geração inteira de pessoas que, quando se sentem desconfortáveis, solitárias ou com medo, usam 'chupetas digitais' para se acalmar e isso vai atrofiando nossa habilidade de lidar com as coisas".

Por meio de sistemas de "recompensa imediata", como curtidas ou comentários positivos, as redes sociais teriam criado métodos de navegação capazes de estimular a circulação da audiência, mas, como efeito colateral, tem condicionado a felicidade dos usuários a tal sistemática. O fato é tão grave que, segundo o psicólogo social Jonathan Haidt, as redes têm relação direta com a explosão de casos de depressão e ansiedade – especialmente em crianças e adolescentes. Segundo este profissional, a tendência se reflete nos recordes de suicídios infantis registrados nos últimos anos. Nos EUA, segundo dados oficiais, o suicídio se tornou a segunda principal causa de mortes de crianças e jovens em idade escolar (12 a 18 anos), ficando atrás apenas de acidentes. 

Outro efeito deste sistema é a indústria de notícias falsas que têm alcance amplificado nas redes em razão da manutenção da audiência dos usuários expostos a anúncios. “Criamos um sistema que privilegia as informações falsas (...) porque as informações falsas rendem mais dinheiro às empresas do que a verdade", diz um dos entrevistados do documentário.

Não há dúvidas que a sociedade está enfrentando sérios dilemas para formar um entendimento sobre o assunto, tais como, se seria possível impedir a manifestação de pensamentos em busca do combate à Fake News ou até que ponto será possível manter-se “desconectado” em um mundo cada vez mais digital.  Inclusive, Justin Rosenstein, ex-desenvolvedor do botão “curtir” do Facebook, percebendo os efeitos das notificações das redes sociais, que o teriam afastado dos relacionamentos pessoais, não pensou duas vezes antes de apagar todas as redes socais de seu iphone.

Não há nenhum mal em usufruir as redes sociais, o problema seria a “coisificação” do ser humano, tornando-o apenas o que ele consome, e não mais o que ele é. E muitas vezes, tornando-o o que ele parece ser, através da imagem construída pelas redes sociais, criando uma competição fictícia entre os indivíduos. E a partir do momento em que a pessoa deixa de lado prioridades pessoais e seu bem-estar à curtidas e comentários, poderíamos ter uma complicada problemática emocional de ordem universal. 

É preciso que fique claro que para alcançar a felicidade e o bem-estar não precisamos negar a tecnologia. Não é isso que irá solucionar o problema! Um primeiro passo está na reflexão em que consiste nossas prioridades atuais, quais os verdadeiros valores que defendemos como corretos para nossa família, grupo social, empresa, etc.  A necessidade humana é de readequar suas prioridades e utilizar a tecnologia como um meio -   não uma condição - para alcançar a felicidade. 

Ainda que decidamos não abandonar ou não mudar os hábitos sobre a utilização das redes sociais é necessário termos a real noção do sistema que estamos alimentando, promovendo uma nova sistemática de valorização e de contatos entre os seres humanos, independente de nova própria vontade.