Como não ter opinião polarizada
Em linhas gerais, o significado da polarização é a divisão de uma sociedade em dois polos a respeito de um determinado tema.
foto: arquivo pessoal
Helton
Kramer Lustoza
Procurador
do Estado
Professor
do Curso de Direito da UNIPAR
www.heltonkramer.com
Uma
reportagem recente publicada no jornal El País (https://brasil.elpais.com/)
demonstrou que a Ideologia e partidarismo atrapalharam a resposta à expansão do
coronavírus. Estudos mostraram que os danos decorrentes da pandemia eram
maiores em regiões europeias onde havia mais divisão entre apoiadores e
opositores aos seus respectivos Governos.
Frente
ao contexto do atual momento em nossa sociedade é comum ouvirmos falar em
polarização. Mas, afinal, o que é polarização e qual seus efeitos na
democracia?
Em qualquer conversa do cotidiano as pessoas estão
tentando se localizar e se alinhar a determinados grupos: favorável ou
contrário a vacina; favorável ou contrário ao lockdown; favorável ou
contrário ao tratamento precoce da covid, etc. Em linhas gerais, o significado
da polarização é a divisão de uma sociedade em dois polos a respeito de um
determinado tema. Ocorre que atualmente essa divisão está sendo drasticamente
utilizada para formar grupos que não dialogam entre si, que se fecham em suas
convicções e não estão dispostos a debater ideias.
O discurso do ódio se tornou mais visível nas redes
sociais, criando uma violência simbólica em relação a grupos ou segmentos da
sociedade, classificados entre “NÓS” e “ELES”. E as redes sociais só
potencializaram este tipo de discurso, alimentando a necessidade de uma luta
contra o “inimigo”, desqualificando-o como sujeito participante da vida
social. Seria como se disséssemos que
aquilo que não parece comigo, ou aquele que não tem a mesma opinião que a
minha, me agride.
O problema do excesso de polarização somada a
democratização dos meios de comunicação, resultou na formação de uma espécie de
bolhas, através das quais, cada indivíduo acaba tendo contato apenas com
opiniões e notícias que reforçam suas ideais. O resultado deste processo será
de que cada pessoa apenas acredita nas informações que venham do seu grupo e
passa a ter ainda mais certeza de que está certa em seus julgamentos. E as
visões e opiniões contrárias se tornam cada vez mais estranhas, absurdas e
inaceitáveis.
E mais, não podemos esquecer que atrás da polarização
existem muitos grupos e partidos extremistas que se alimentam do
descontentamento e da intolerância para ganhar mais apoio popular. E um
ambiente polarizado, com predominância da intolerância, reforça e propicia a
ascensão de líderes populistas, ou seja, aqueles que têm pouco apreço às normas
democráticas e às limitações de poder.
Em meio ao cenário atual, onde a polarização é cada vez
maior, faz-se necessário discutir sobre a tolerância, para tentarmos combater o
fanatismo com antídotos como aqueles propostos por Amós Oz em seu livro “Como
curar um fanático”. Amós foi um escritor com vasta produção literária, que
cresceu em Jerusalém, onde vivenciou o conflito entre Israel e Palestina. Diz
este autor que o fanatismo começa em casa “com o impulso comum de mudar um
parente para o próprio bem dele”, e avalia que este impulso faz do fanático
um grande altruísta. Relata o autor que existem aspectos que torna possível
identificar um fanático, como a intolerância, o sentimentalismo (em detrimento
da razão, o culto a personalidades como líderes políticos, religiosos ou indivíduos
carismáticos) e a falta de senso de humor.
Pois bem, uma vez identificado um fanático, como então
combatê-lo? O autor nos dá algumas diretrizes, dentre elas defende ser possível
combater o fanatismo através do senso de humor, sendo que o “humor é
relativismo, (…) humor é a capacidade de perceber que, não importa quão justo
você é, e como as pessoas têm sido terrivelmente erradas em relação a você, há
um aspecto da vida que é sempre um pouco engraçado”.
Em meio a esta batalha travada em nossa sociedade entre
o certo e o errado, podemos seguir o conselho do autor Amós Oz, e, quem sabe
buscar encarar a vida com muito mais bom humor. O amadurecimento de um debate
democrático exige muito mais do que respostas complexas e bem fundamentadas,
uma vez que devemos transformar este tempo de convívio em comunidade como uma
fase prazerosa.
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