Artista precisa sofrer para prosperar? A crença que ainda limita carreiras criativas
Especialista defende que prosperidade e criatividade podem caminhar juntas na carreira artística
professor Guilherme Laqua. Foto: reprodução/assessoria
A ideia de que um artista precisa sofrer para criar, viver com dificuldades financeiras ou cobrar pouco para ser reconhecido ainda está presente em diversos segmentos da economia criativa. Embora muitas vezes seja tratada como um ideal romântico, essa visão pode se transformar em uma crença limitante capaz de comprometer o crescimento profissional, financeiro e até pessoal de quem vive da arte.
O tema ganha relevância em um momento em que a economia criativa ocupa cada vez mais espaço no mercado e movimenta bilhões de reais em diferentes áreas, como design, ilustração, audiovisual, música, fotografia e produção de conteúdo.
Para o ilustrador infantil e professor Guilherme Laqua, prosperidade não deve ser entendida apenas como dinheiro, consumo ou status. Segundo ele, o conceito está ligado ao equilíbrio entre diferentes áreas da vida.
“Prosperidade tem a ver com as áreas da vida. Elas oscilam. A ideia é ter um certo fluxo de equilíbrio, mas da média para cima, com perspectiva e planos”, afirma.
O mito do artista pobre
Durante décadas, muitos profissionais criativos cresceram ouvindo que a arte verdadeira deveria nascer exclusivamente da paixão, enquanto dinheiro e planejamento seriam elementos secundários. O resultado dessa mentalidade é que diversos artistas acabam aceitando trabalhos mal remunerados, cobrando abaixo do mercado ou sentindo culpa quando conseguem prosperar financeiramente.
Na prática, porém, o mercado exige muito mais do que talento. Produzir arte também envolve negociação, estratégia, posicionamento profissional, cumprimento de prazos e construção de relacionamento com clientes.
Quando o dinheiro se torna um tabu, o artista corre o risco de desvalorizar o próprio trabalho e limitar suas oportunidades de crescimento.
Prosperidade também é estrutura
Viver de arte exige organização. Isso inclui estudar o mercado, desenvolver repertório, aprender novas técnicas, construir um portfólio sólido e compreender a precificação dos próprios serviços.
Um ilustrador, por exemplo, não vende apenas um desenho. Ele entrega conhecimento, linguagem visual, narrativa, criatividade e anos de experiência acumulada.
Nesse contexto, cobrar adequadamente não significa abandonar a paixão pela arte, mas reconhecer o valor real do trabalho realizado.
Saúde também faz parte da carreira
Outro aspecto frequentemente ignorado é a saúde física do artista. Profissionais que passam horas desenhando, pintando ou trabalhando diante do computador costumam sofrer com dores musculares, problemas posturais e desgaste físico.
Para Laqua, cuidar do corpo é parte fundamental da prosperidade profissional.
“O mais importante é fortalecer o corpo. O ilustrador fica muito contraindo trapézio, sente cervical, escápula. Então trabalha, faz exercício físico. Isso também é um fator da prosperidade”, destaca.
Aprender novas habilidades gera oportunidades
Outro bloqueio comum é acreditar que o artista já deveria dominar todas as técnicas de sua área. Essa ideia muitas vezes impede o desenvolvimento profissional e reduz as possibilidades de atuação.
Laqua relata que o aprendizado de novas técnicas ampliou suas oportunidades de trabalho e de geração de renda.
“Destravar novas habilidades também me parece algo próspero. Financeiramente, inclusive, porque agora eu posso vender isso”, afirma.
A capacidade de aprender continuamente permite que artistas diversifiquem serviços, criem novos produtos e encontrem fontes adicionais de receita.
Prosperidade protege a arte
Ao contrário do que sugere o mito do artista sofredor, prosperidade não significa abandonar a sensibilidade ou transformar a arte apenas em negócio. Significa criar condições para continuar produzindo com qualidade, autonomia e liberdade.
Um profissional que organiza suas finanças consegue escolher melhor seus projetos. Um artista que cuida da saúde tem mais energia para criar. Quem investe em conhecimento amplia suas possibilidades de atuação.
A pobreza não é requisito para a criatividade. A precariedade não é sinônimo de profundidade artística.
A arte pode continuar sendo humana, crítica e transformadora sem que o artista precise abrir mão da estabilidade, da qualidade de vida e da prosperidade. Afinal, quando o criador prospera, sua arte também ganha mais espaço para evoluir, alcançar novos públicos e gerar impacto positivo na sociedade.
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